As minhas Nóias

Publicado em: 20 de Dezembro 2025

Quando um Risco se transforma em Fotografia

Tudo começou num dia de Sol forte em Agosto, na Praia das Avencas ( Cascais ). Eram duas da tarde e eu estava sentado numa cadeira de praia, abrigado por um chapéu de sol, com um pequeno caderno no joelho, a tentar aprender a desenhar.

O que vês aqui não é o trabalho de um artista, é apenas o exercício de um fotógrafo que decidiu trocar a máquina pela esferográfica por uns momentos.

Pequeno caderno com desenhos

Antes de continuares a ler, peço-te que pares um pouco. Olha para este desenho e tenta perceber o que está ali.

Que pessoas consegues ver?

O que é que estão a fazer?

Que história te contam estes riscos pretos no papel do meu caderno?

Não procures técnica, porque eu ainda não a tenho. Estou a começar, sem estilo nenhum, apenas a riscar o que o meu olho de fotógrafo tenta aprender com uma esferográfica.

Mudar o esquema

Este projecto serviu para dar uma volta àquilo que estou habituado a ver.

Normalmente, o processo é simples: o fotógrafo vê a realidade e tira a foto, ou o artista vê a realidade e faz um desenho.

Aqui, fiz o contrário.

Usei os meus riscos — simples e cheios de falhas de quem está a aprender — como se fossem a "verdade". Pedi a "oMeuAi" para ser a lente que fotografava o meu desenho.

O resultado: criámos fotos de pessoas que não existem na vida real, mas que agora parecem reais por causa da minha memória e do que risquei no papel.

Pequeno caderno com desenhos

Do papel para a fotografia

Com a ajuda do "oMeuAi", transformámos quatro rabiscos do caderno em imagens do que eu vi naquele dia. A escolha do preto e branco não foi por acaso, nem é apenas por uma questão de gosto. Durante muito tempo, a minha fotografia foi feita com rolo e revelada por mim no meu laboratório (darkroom). Foram anos a trabalhar a química e a luz no escuro para criar as minhas imagens.

Com a chegada do digital, e por uma questão de ecologia para deixar de utilizar químicos, abracei o lightroom ( darktable ), mas a base do meu olhar continua a ser essa experiência de laboratório. Embora admire o contraste e a arte de nomes como Frank Miller ou Will Eisner, a minha verdadeira escola é a da luz e da revelação manual. É essa linguagem que tentei trazer para estas imagens com uma prompt.

Nas imagens que aqui mostro, aquela "Leitora" que no papel era só um risco, agora tem luz e sente-se a areia da praia. Os grupos que passam a caminhar, que nunca existiram numa foto verdadeira, parecem ter sido apanhados naquele calor da tarde. Vê-se ainda o casal de idosos com a bengala, a afastar-se de nós, e a criança pequena junto à água.

Ver sem a câmara na mão

Este exercício mostrou-me que para "fotografar" não preciso de ter sempre a câmara comigo. Às vezes, basta a vontade de ver o que está para lá de um risco no papel. Não sei para onde o meu desenho me vai levar, mas sei que este caminho entre um rabisco e a imagem final é algo que me dá muito gozo explorar. No fundo, a nossa cabeça e a nossa imaginação podem ser a melhor lente que temos.

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